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[REC]

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Quando descubro que um filme terá uma estratégia narrativa realizada como foi feito os incríveis “A Bruxa de Blair” ou “O olho que tudo vê” e até mesmo o fantástico “Cloverfield”, grande parte do filme já ganhou da minha parte grande empatia, mesmo porque todas essas histórias vêm com enredos totalmente ficcionais e se adéquam com perfeição à realidade. Seus estilos documentais e cenas construídas com o objetivo de serem “reais” assustam e conseguem tirar muitos calafrios do espectador.
E agora foi a vez do terror espanhol [REC] realizar o grande feito criado por “A Bruxa de Blair”. Ótima película que impressiona pelo seu ritmo, ótimas atuações, intenso, com uma edição de som bem realizada e completamente assustador.
O filme começa sem frescura, e apresenta a repórter Ângela (Manuela Velasco) realizando um programa chamado “Enquanto você dorme” que, em um corpo de bombeiros, realiza uma matéria sobre o cotidiano daqueles profissionais. Ansiosa que algo interessante aconteça, a jornalista se anima quando o alarme soa no local, e dali juntamente com seu cinegrafista, os bombeiros e policiais vão parar numa situação totalmente pavorosa.
Dirigido por Jaume Balagueró e Paco Plaza, [REC] acontece sempre pelo olhar do cinegrafista (que nunca aparece) da jornalista, e com essa abordagem visual [REC] coloca o espectador como mais um integrante daquela história, tornando-a assim mais assustadora. Escrito pelos diretores e também por Luis Berdejo, o roteiro abusa do realismo para desenvolver a narrativa e, para isso, não usa nenhuma trilha sonora, descarta o uso de cortes especiais, apenas sons naturais de tudo que rodeia os personagens. O som em [REC] é tratado de maneira específica para parecer que tudo é captado pelo microfone da câmera do cinegrafista. A fotografia também possui papel importante. Realizado por Pablo Rosso, utiliza o foco de luz da câmera a manter os pontos mais assustadores do filme, a fim de revelar a expressão de horror dos personagens. É incrível a utlização do sistema “night shot”(visão noturna) que revela um dos pontos mais assustadores da trama.
Não dá para não falar do elenco de [REC], Balagueró e Plaza, conseguem de forma incrível revelar os personagens de forma muito criativa e com ótimas atuações, destaque na cena do morador César (Carlos Lasarte) que penteia os cabelos sem saber que está sendo gravado, flerta com o cinegrafista e se preocupa com a oleosidade de sua pele. Destaque também para a enérgica e intensa jornalista que busca defender com todas as forças sua matéria, independente do grau do risco em que se encontra.
[REC], por mais que utilize recursos já clichês nesse estilo narrativo, se sobressai por suas características peculiares, e mesmo que re-invente uma história a la George Romero (A volta dos mortos vivos) consegue assustar e encantar o espectador porque faz pensar na realidade da situação, que aquelas pessoas, são reais e os monstros também. É mais um grito em forma de desespero dos indivíduos que pelo medo se transformam defensores da sobrevivência, ou monstros cheios de fúria e fome.

RINGU

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Uma misteriosa fita de vídeo que, ao ser assistida, lança uma terrível maldição em seus espectadores, que morrem exatamente sete dias depois. Esta é a idéia principal de Ringu, filme do diretor Hideo Nakata que jamais esperou o que significaria sua obra para o cinema japonês no gênero terror.
Nakata criou um filme nada ousado, mas muito efetivo, tanto é que cinco anos mais tarde foi testemunha de ver sua obra sendo refilmada (O Chamado I e II) nos Estados Unidos pelo diretor de A Mexicana e o Ratinho Encrenqueiro, Gore Verbinski. Mas com uma idéia tão batida, quem sabe as vezes até “hollywoodiana”, como Ringu teve grande sucesso no Japão e contribuiu tanto para o cinema japonês? Aqui entra a questão não o que se escreve, mas como se escreve. A idéia de Ringu pode até ser clichê, mas a maneira que Hideo Nakata constrói a narrativa, é que soa original.
Uma interessante história sobre uma fita de vídeo que, ao ser assistida, lançava uma terrível maldição em seus espectadores, que morriam exatamente sete dias depois. É então que uma jornalista resolve investigar o caso e, sem acreditar muito na lenda, acaba assistindo ao vídeo – somente para descobrir, logo em seguida, que a tal praga é real. Desesperada, ela pede a ajuda do ex-marido para que, juntos, consigam descobrir uma forma de cancelar a maldição antes que esta provoque sua morte.
O filme de terror atmosférico de Hideo Nakata não desilude de forma alguma. É uma história de terror contada sutilmente, sem estilizações, mas com uma eficácia narrativa e visual absolutamente desarmante. A trilha sonora é construída adequadamente ao estilo atmosférico do filme, um cruzamento de pessoas gemendo, com barulhos e chiadeiras de metais e água escorrendo, muito bem trabalhada. A sua atmosférica opressiva, lenta e cuidadosamente criada pelo diretor, minuciosamente, suga o espectador, deixando-o sem ações durante a trama toda do filme.
A metalinguagem utilizada por Nakata na narrativa, a maneira de agregar à sua história uma certa impiedade bem realista em relação a idéia do filme, a medida que o filme lança lentamente ao espectador a razão da maldição existente na fita, das origens, casualidades. O diretor não se preocupa apenas em mostrar esses mistérios, mas os mistérios existentes na relação entre os personagens. A jornalista por exemplo, acaba criando uma relação um tanto fria com a maioria dos personagens que aparecem ao decorrer da trama. Hideo Nakata trabalha tão bem e com tanta sutileza esse relacionamento que no filme, representado pelos figurantes, as pessoas que andam pela cidade, no mundo moderno do Japão, estão sempre correndo, estressadas, esbarrando uma nas outras, sem a tradição que os ocidentais estão acostumados a se deparar, mesmo na cena em que a jornalista vai para a casa do pai de Sadako (a garotinha que sai do poço) a casa no estilo oriental, que perde sua tradição para o mundo moderno. As personagens que aparecem não criam quase algum laço emocional e Nakata faz questão de ser frio nesse aspecto, deixando a entender para o espectador que tudo e todo acontecimento misterioso está relacionado à maldição da fita.
Ringu passa na tela de uma forma tão misteriosa que não conseguimos igualar a um filme hollywoodiano que escancara o terror na cara dos espectadores, razão que Nakata mostra ao mundo que o maior terror e o maior medo é feito de sutilezas. Ringu não é um filme para a massa, mesmo por que a massa não se diverte com sutilezas. E também não deixa de ser um filme de horror, pela proximidade de que Nakata cria com seus personagens, a vertente de filmar um envolvimento que passa na mente de seus personagens, que chega ao fim de alguma forma trágica, e bastante esperançosa. A maldição pode ser fatal, mas o ser humano é mais forte e inteligente que isto.
Ringu sobretudo se tornou emblemático, ao ponto de se tornar um marco no cinema de gênero terror, responsável por criar um novo estilo, suscitando uma nova formada de filmes de horror asiático. O intento de Hideo Nakata é fugir das regras do cinema ocidental, com o objetivo de entreter o espectador, não preocupado com momentos de suspense e terror, mas preocupado em envolver-se com a angústia junto aos personagens que procuram a solução para tal maldição. Nakata foge do tradicional, a construção do horror se resume a momentos de espera para um assassinato ou morte, seguido por uma trilha sinistra, que serve apenas para um pulo na poltrona. A função de Ringu é criar tal atmosfera para capturar e torturar o espectador durante o filme todo.
O cinema ocidental finalmente despertou para olhar outras vertentes, até mesmo os próprios espectadores, causalidade de um tempo que se esgotou dos clichês e das mesmices. Os gêneros cinematográficos tornaram-se cansativos, os espectadores alienados por um cinema cheio de regras. O cinema asiático tem lutado muito contra essas regras, dando margem para a verdadeira expressão e criação da arte. Pena a força maior ainda estar com a grande potência ocidental, mas o começo já é uma maravilha. O cinema mundial atual foi jogado para o fundo de um poço sem luz, massacrado pelos clichês que copiam a mesma fórmula de se fazer cinema, mas sempre há aqueles que fazem cinema, diferenciando a melhor forma de se expressar, saindo vagarosamente do fundo, e lentamente, da tela de cinema ou da própria televisão “atacar” os mais profundos sentimentos do espectador, representando sempre bem a melhor forma da criação.

OS EXCÊNTRICOS TENENBAUMS

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O gênero comédia sempre foi um pouco criticado por certas pessoas e adorado por outras. Sempre dividiu muita gente. Só que nos tempos de hoje, esse gênero tem agregado muito ao simples fato de rir e se tornado um gênero com muitos gêneros. É a comédia romântica, a “pastelão”, terror, dramática, ação, trágica, de guetos ou rappers, etc.
Agora, quando assisti Os Excêntricos Tenenbaums, descobri um gênero de comédia mais séria, um pouco mais depressiva e melancólica, pode-se dizer que chega a ser um pouco dramática. Você pode até perguntar. É possível? Sim. Depois de Os Excêntricos Tenenbaums o famoso estilo “rir da desgraça e dos problemas das pessoas” tem enchido muitas salas de cinema.
Produção realizada em 2001, Os Excêntricos Tenenbaums é um filme que mostra todos os personagens como pessoas com graves problemas de relacionamento e muitos deles vivendo constantemente deprimidos, e por incrível que pareça, há graça nisso. Certo que há momentos em que o espectador fica na dúvida se é pra rir ou chorar, mas o charme está aí.
O filme conta a história de Royal Tenenbaum (Gene Hackman), pai de uma família que carrega um sério problema de relacionamento. Royal após ficar afastado durante anos da família, procura voltar para perto da família e reconquistar os três filhos e a ex-esposa (Angelica Huston), que está para casar com o contador (Danny Glover) que acompanha a família há tempos. Royal então começa a inventar várias mentiras como forma de aproximar-se da família, aí começa o problema. Os três filhos de Royal agora se preocupam com os próprios problemas.
Margot (Gwyneth Paltrow), filha adotiva da família, tornou-se uma mulher depressiva e guarda vários segredos dos parentes e inclusive do seu marido. Richie (Luke Wilson) alimenta um amor secreto por sua irmã adotiva Margot. Chas (Ben Stiller) vira um homem obcecado pela segurança de seus dois filhos, após perder a esposa.
Dirigido por Wes Anderson que também assina o roteiro junto com Owen Wilson (irmão de Luke Wilson), Os Excêntricos Tenenbaums demonstra um certo cuidado ao desenvolver os personagens da trama desde o início do filme, porque já nos créditos iniciais o perfil de cada um é contado como a história de um livro ilustrado. Interessante, porque percebe-se que cada personagem já publicou alguma obra e isso mostra que cada um possui opiniões próprias e lidam como visão de mundo, o que reflete e dificulta mais ainda o relacionamento entre eles.
Não dá para não notar a atuação incrível dos atores. Wes Anderson abusa de planos e tomadas que realçam a expressão de cada personagem, é incrível os planos em que Anderson encara os atores nos olhos, mostrando que cada personagem não tem medo, não se preocupa e se orgulha com o julgamento do espectador.
Vale a pena notar Os Excêntricos Tenenbaums, por um novo gênero de comédia e pela discussão de sentimentos que o filme revela, a confusão de sentimentos que a história revela, ilumina o simpático mau caráter e esconde a beleza do puro sentimento, é divertido julgar essa confusão, afinal pode-se tornar como exercício para vida ou até mesmo uma maneira divertida de rir-se e descobrir que existe uma forma diferente de achar graça dos problemas e que a vida não vai cair por isso.

HANCOCK

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Chegou nas locadoras este mês, o divertido Hancock. Um super-herói solitário, depressivo, amargurado e alcoólatra, tudo originário dos constantes prejuízos causados aos moradores e a própria cidade que supostamente protege. Este é um argumento diferente e interessante ao se tratar de um filme de super-heróis, inclusive sobre qualquer gênero de narrativa. O filme diverte, mas o diretor Peter Berg realmente decepciona por não conseguir conduzir a história de Hancock na inter-relação entre os gêneros, ou seja não rende um interessante enredo trágico-cômico. Torna-se um filme que não acrescenta muita coisa, apenas o puro entretenimento.
Assinado também por Vince Gilligan (conhecido por escrever a famosa série Arquivo X) e por Vincent Ngo, trazem Will Smith como Hancock, o cômico herói que perambula como mendigo, lutando diariamente com o fardo que carrega por ser o único de sua espécie. Hancock já desistiu de buscar a compreender de onde veio e de alguma forma tentar agradar quem quer que seja. Cansado da responsabilidade de ter que “salvar o dia da cidade” ele se entrega a tarefa de herói com descaso, o que gera um desastre ainda maior a cidade. No meio dessa confusão toda, surge o caráter e talentoso Will Smith (Hancock) que consegue construir um personagem completamente expressivo, desde o sujeito derrotado, mal humorado e melancólico ao herói que busca receber o carinho da população numa expressão gélida, mas que permite ao espectador sentir um traço de emoção por baixo da couraça de depressão que carrega aquele personagem.
É cômico quando entra em cena o relações-públicas Ray Embrey (Jason Bateman) que resolve adotar Hancock e torná-lo um super herói digno de ser amado. É uma pena ver um ator com grande talento como Bateman fazer um papel do puro sentimento e bonzinho homem de família, não exigindo suas qualidades como ator. É triste também ver a maravilhosa Charlize Theron em um papel que apenas exige olhares preocupados em um close, sua beleza esta incrível em Hancock, mas o próprio papel de dona de casa desesperada não permite utilizar seus poderes como atriz.
Como já foi dito, é uma pena que Hancock poderia funcionar como filme consistente, mas Peter Berg não consegue, imaginar o quão dolorosa seria a história de Hancock, e a felicidade de encontrar alguém que pudesse reconstruir e reescrever sua vida. Descobrir que Hancock é um super herói onde a sociedade é sua força e a fraqueza ao mesmo tempo (é diferente com a gente?), isso são fatos que se bem desenvolvidos e bem escritos não tornariam Hancock apenas um filme divertido, mas sim uma maneira bastante criativa de rir e chorar de si mesmo e da própria sociedade.

MIGRAÇÃO ALADA

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Indicado ao Oscar de Melhor Documentário em 2003, Migração Alada teve a sua indicação metralhada pelo diretor Michael Moore por Tiros em Columbine e a poesia visual do diretor francês Jacques Perrin acabou migrando para alguns cinemas e logo as prateleiras de documentário das locadoras. O intento do filme não se resume apenas a isso, se resume nos diversos vôos e migrações que o filme realiza através do gênero documentário.
Jacques Perrin não assina a direção sozinho. Jacques Cluzaud, Michael Debats, Francês Roux e Guy Jarry também testemunham uma grande variedade de pássaros durante sua migração que atravessam 40 países e 7 continentes. Para estabelecer as inserções dessa migração, através de balões, planadores, helicópteros e aviões, uma equipe de 450 pessoas, 17 pilotos e 14 câmeras voam em frente, ao lado, abaixo, acima e atrás dos pássaros, a fim de construir um maravilhoso documentário visual.
Por mais que Migração Alada levante o questionamento da imagem-real e da imagem-ficção ao espectador, logo na abertura o filme trata de informar que as imagens foram captadas sem efeitos especiais, o argumento não serve como resposta, mas o próprio documentário convence o espectador de que a natureza precisa ser documentada de forma representar não como ela é, mas o que é. O efeito de deslumbramento constante é o que busca o filme, sem perder sua narrativa direta, o documentário revela o mundo natural para o olhar do espectador, mostrando a beleza que o próprio homem-espectador desconhece, razão essa que Migração Alada inicia o filme com a interação de uma criança com os pássaros, o lidar da inocência com um mundo novo e deslumbrante, um espectador que se maravilha com a primeira luz, as primeiras descobertas e as primeiras lições.
A ausência do narrador onipresente (técnica comum utilizada em documentários) faz com que o próprio espectador se interesse pela narrativa escolhida e interaja com maior força com o filme. O próprio Perrin e seus co-diretores não queriam deixar uma hora e meia de pássaros voando na tela, por isso o argumento da migração para criar uma dramatização no documentário que começa num ponto de partida: o deslocamento dos pássaros para o Norte na estação da Primavera e a promessa da volta, a migração na estação do Outono. A narrativa se torna um círculo, e a linguagem se torna claramente dramática, caso que é representado no início quando a criança retira das redes um pássaro preso, e esse ao levantar vôo, leva consigo um pedaço da rede presa à pata e é reconhecido em outros momentos do filme por estar trazendo de volta o mesmo resquício da rede.
A própria necessidade de tornar humano a relação e a vivência dos animais é um “golpe” aplicado para gerar a atenção do público e o filme acaba ganhando um interesse maior durante a narrativa, a necessidade do cinema documentário se tornar transparente, como o próprio estilo hollywoodiano. Cenas como o plano de uma arara azul que consegue libertar-se da gaiola, motivo por qual o espectador “torce” pela liberdade da ave; o macaco que “tristemente” desiste de lutar e com uma expressão “humana” demonstra seu fracasso. Tem-se também o pássaro com a asa quebrada que cercado por siris torna-se vítima indefesa, motivos que leva a ignorante inocência-espectador refletir e a se deslumbrar.
Migração Alada é um ótimo filme-documentário como forma de conhecimento e entretenimento, poucos ainda conseguem se reinventar de forma tão real ou tal como é. Muitos documentários ganham seus prêmios a fim de mostrar algo na história que já possui sua dramaticidade, difícil é criar um documentário que demonstre da natureza seu próprio drama e sua própria beleza.

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

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Em um dia qualquer, em tal hora, em tal lugar, um homem no movimento de uma cidade grande aguarda o semáforo mudar para a cor verde, mas tal mudança não acontece, ele ficou cego.
Assim começa o magnífico livro “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago mais uma obra que seduz o cineasta Fernando Meirelles, que, sempre gostou de fazer adaptações literárias, grande diretor marcado por narrativas político-sociais que permeiam seu cinema, do divertido e engraçado “Domésticas”, o chocante e impactante “Cidade de Deus” e o primeiro “oscarizável” de suas obras, o fabuloso “O Jardineiro Fiel”. Assinado também por Don McKellar , a adaptação “Ensaio sobre a cegueira” busca representar mais uma discussão sobre o rumo de uma sociedade moderna e globalizada e o rumo que esta vem tomando. Este combate utópico mergulha em um mundo completamente atemporal e caótico, as placas dos carros são brasileiras, pessoas falam em inglês, o locutor de rádio em português. O espectador se depara com imagens de São Paulo, outras do Japão e até do Canadá, representados nesse novo mundo globalizado e pequeno, onde todos se conhecem e ao mesmo tempo distanciam-se da própria condição humana e aproximam-se do instinto básico animal.
“Ensaio sobre a cegueira” procura discutir o fato de que as pessoas antes de perderem a visão, já viviam completamente “cegas” perante o mundo em que vivem. Onde a cura para a tal “cegueira branca” só estaria na re- socialização da humanidade, no ato de reconhecer que dependemos dos outros e necessitamos enxergar o próximo. Para isso, é interessante a lógica que a narrativa busca retratar, assim como no livro, as pessoas não tem nome e são identificados apenas pelas profissões ou características mais marcantes, exemplos como “O médico”, “A mulher do médico” “O garoto estrábico”. E não é assim que definimos no nosso mundo as pessoas que nos cercam? As vezes de forma injusta e até pejorativa?
Meirelles conduz sua obra de forma inteligente, junto com seu elenco busca desenvolver com maestria os personagens criados por Saramago. Por exemplo a maravilhosa Juliane Moore, representa “A mulher do médico”, dona-de-casa entediada, com grande atuação Moore representa tal marasmo, com apenas um olhar distante e um simples gole de vinho, e ao longo da história “A mulher do médico” vai se tornando uma personagem mais complexa, ainda mais que ela vira peça fundamental não só da vida de seu marido como a de um grupo de pessoas. Assim como, Gael Garcia Bernal, “o Rei da Camarata 3” consegue se tornar asqueroso e cômico ao mesmo tempo, destaque para o momento em que imita o cantor Stevie Wonder.
O visual do filme também merece destaque. A direção de fotografia de César Charlone, investe numa câmera totalmente oscilante, planos que cortam os personagens e cenários pela metade. O ar de brancura e frieza existente em toda projeção colocando ou aproximando o espectador a própria “cegueira branca”.
“Ensaio sobre a cegueira” tem em todo seu aspecto fatores representativos, cenas que chocam e ao mesmo tempo nos comove pelo simples fato de estarmos inseridos no mesmo contexto do filme. Se estamos irritados pelo fato de que alguém atrapalha o seu filme por conversar, ou até mesmo alguém que passeia pelo cinema. De repente um estado de “cegueira branca” é necessária, se estamos em um mundo que nos coloca dependentes de qualquer um, não é cor, sexo, opção sexual ou condição social que nos afasta, é simplesmente a ignorância de um pano branco que paira sobre os olhos de uma sociedade que não quer ver que tolerância e amor é o melhor meio de seguirmos em frente, sempre juntos.

AMARELO CINEMA QUE PULSA

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Amarelo Manga, produção brasileira de 2003, do pernambucano Cláudio de Assis, particularmente, tem sido um dos filmes mais arrebatadores, chocantes e realistas já inventado ou produzido no cinema brasileiro. Difícil, é ver, e até mesmo falar de Amarelo Manga, ora por não querermos enfrentar a situação real da condição humana, ora por não aceitar que vivemos nesta real situação, na sociedade conturbada, doentia, mesquinha, dilacerada, pobre e contraditória como a do Brasil. Adjetivos que resumem a ideologia da desconcertante e incômoda obra de Cláudio de Assis.
Com um tributo à cidade de Recife, Amarelo Manga, explicita a situação da condição humana, através de histórias que se entrelaçam de forma inteligente e dinâmica fazendo o espectador se remoer e rever suas crenças, valores e opiniões que surgem durante a narrativa, através das atitudes das pessoas, nessa multifacetada discussão social.
Lígia (Leona Cavalli), mora e trabalha em um bar chamado Avenida, sua vida cotidiana se resume em acordar e já ir direto ao trabalho, todos os dias são iguais, até mesmo as reclamações. Sua relação com o próprio corpo não possui restrições, está sempre a mostra, celebra o corpo, mas o interdita a posse e não aceita as provocações feita por seus clientes do bar.
Isaac (Jonas Bloch) é um dinamarquês-brasileiro envolvido com o tráfico de drogas e está sempre a busca e negociando cadáveres para satisfazer um próprio fetiche, atirar em corpos em decomposição.
Kika (Dira Paes), uma evangélica que está sempre escondendo seu corpo e preocupada com comentários do próximo, acaba servindo de “chacota” para sua vizinhança, justamente por ser casada com um mulherengo que trabalha em um matadouro.
Wellington “O Kanibal” (Chico Diaz) é o marido mulherengo de Kika que trabalha no matadouro, possui uma amante para satisfazer seus desejos sexuais, relação que não possui com Kika.
Trabalhando e morando em um hotel, Dunga (Matheus Nachtergaele), é um homossexual, que deseja tanto no amor, quanto no sexo, o Kanibal. É capaz de fazer qualquer coisa para possuir mulherengo.
Esteticamente, o filme se apodera de uma linguagem visual que representa a relação social dos indivíduos criados a partir das possibilidades do mundo real. Amarelo Manga nos questiona se fazemos parte do mundo proposto, vivendo cada momento, mesmo que muito repugnante. Traição, religião, discussão de gênero, tudo se escancara frente à tela, como um tapa de mão cheia no rosto do espectador. Mesmo porque, o mais forte da obra está representado numa linguagem carnal, animal, sanguíneo seja qual for o sentido das suas significações. Personagens se inserem num círculo, numa dimensão, num cenário de desejo, que os tornam determinados a lutarem seja de qual forma for por sua ambição. Individualismo combativo marcado justamente pelo desejo, desejo da carne, do sangue, que serve de guia para a determinação. Personagens guiados pela paixão, que penetram, num plano de armadilhas e vinganças, de uma busca avassaladora pelo desejo e pela felicidade.
Amarelo Manga sempre se representa numa relação primitiva e individualista de cada personagem, através de uma filosofia trágica onde o homem transita como um animal degenerado que vaga sobre o pasto em direção a seu matadouro, com sua marca de sangue que o impede à felicidade e seu principal objetivo, o desejo.
O próprio diretor Cláudio Assis afirma: "quero fazer um cinema que mostre o povo, o seu lado mais marginal, o submundo. Não quero fazer filmes limpinhos nem filmar o sertão com gente bem vestida. O nosso povo não é assim".
Felizmente Amarelo Manga vem propondo ao cinema nacional, a característica da ideologia, a realidade e sua própria estética. Assim, os indivíduos são capazes de aprender, e até mesmo de entender e a aceitar a cultura, os costumes, as crenças,e que, a maldade, a contradição e a própria condição humana pode estar presente na vida de qualquer outro indivíduo que faça parte do universo.
Amarelo Manga, como foi dito é um filme difícil de se falar e de entender ou seja, de aceitar a própria realidade, que realmente vivemos na própria órbita de um amarelo manga, vivo e pulsante, quem sabe da cor do ouro, cor que reluzirá apenas no momento em que curarmos o amarelo das feridas purulentas, doentio e sarcástico.