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MIGRAÇÃO ALADA

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Indicado ao Oscar de Melhor Documentário em 2003, Migração Alada teve a sua indicação metralhada pelo diretor Michael Moore por Tiros em Columbine e a poesia visual do diretor francês Jacques Perrin acabou migrando para alguns cinemas e logo as prateleiras de documentário das locadoras. O intento do filme não se resume apenas a isso, se resume nos diversos vôos e migrações que o filme realiza através do gênero documentário.
Jacques Perrin não assina a direção sozinho. Jacques Cluzaud, Michael Debats, Francês Roux e Guy Jarry também testemunham uma grande variedade de pássaros durante sua migração que atravessam 40 países e 7 continentes. Para estabelecer as inserções dessa migração, através de balões, planadores, helicópteros e aviões, uma equipe de 450 pessoas, 17 pilotos e 14 câmeras voam em frente, ao lado, abaixo, acima e atrás dos pássaros, a fim de construir um maravilhoso documentário visual.
Por mais que Migração Alada levante o questionamento da imagem-real e da imagem-ficção ao espectador, logo na abertura o filme trata de informar que as imagens foram captadas sem efeitos especiais, o argumento não serve como resposta, mas o próprio documentário convence o espectador de que a natureza precisa ser documentada de forma representar não como ela é, mas o que é. O efeito de deslumbramento constante é o que busca o filme, sem perder sua narrativa direta, o documentário revela o mundo natural para o olhar do espectador, mostrando a beleza que o próprio homem-espectador desconhece, razão essa que Migração Alada inicia o filme com a interação de uma criança com os pássaros, o lidar da inocência com um mundo novo e deslumbrante, um espectador que se maravilha com a primeira luz, as primeiras descobertas e as primeiras lições.
A ausência do narrador onipresente (técnica comum utilizada em documentários) faz com que o próprio espectador se interesse pela narrativa escolhida e interaja com maior força com o filme. O próprio Perrin e seus co-diretores não queriam deixar uma hora e meia de pássaros voando na tela, por isso o argumento da migração para criar uma dramatização no documentário que começa num ponto de partida: o deslocamento dos pássaros para o Norte na estação da Primavera e a promessa da volta, a migração na estação do Outono. A narrativa se torna um círculo, e a linguagem se torna claramente dramática, caso que é representado no início quando a criança retira das redes um pássaro preso, e esse ao levantar vôo, leva consigo um pedaço da rede presa à pata e é reconhecido em outros momentos do filme por estar trazendo de volta o mesmo resquício da rede.
A própria necessidade de tornar humano a relação e a vivência dos animais é um “golpe” aplicado para gerar a atenção do público e o filme acaba ganhando um interesse maior durante a narrativa, a necessidade do cinema documentário se tornar transparente, como o próprio estilo hollywoodiano. Cenas como o plano de uma arara azul que consegue libertar-se da gaiola, motivo por qual o espectador “torce” pela liberdade da ave; o macaco que “tristemente” desiste de lutar e com uma expressão “humana” demonstra seu fracasso. Tem-se também o pássaro com a asa quebrada que cercado por siris torna-se vítima indefesa, motivos que leva a ignorante inocência-espectador refletir e a se deslumbrar.
Migração Alada é um ótimo filme-documentário como forma de conhecimento e entretenimento, poucos ainda conseguem se reinventar de forma tão real ou tal como é. Muitos documentários ganham seus prêmios a fim de mostrar algo na história que já possui sua dramaticidade, difícil é criar um documentário que demonstre da natureza seu próprio drama e sua própria beleza.

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

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Em um dia qualquer, em tal hora, em tal lugar, um homem no movimento de uma cidade grande aguarda o semáforo mudar para a cor verde, mas tal mudança não acontece, ele ficou cego.
Assim começa o magnífico livro “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago mais uma obra que seduz o cineasta Fernando Meirelles, que, sempre gostou de fazer adaptações literárias, grande diretor marcado por narrativas político-sociais que permeiam seu cinema, do divertido e engraçado “Domésticas”, o chocante e impactante “Cidade de Deus” e o primeiro “oscarizável” de suas obras, o fabuloso “O Jardineiro Fiel”. Assinado também por Don McKellar , a adaptação “Ensaio sobre a cegueira” busca representar mais uma discussão sobre o rumo de uma sociedade moderna e globalizada e o rumo que esta vem tomando. Este combate utópico mergulha em um mundo completamente atemporal e caótico, as placas dos carros são brasileiras, pessoas falam em inglês, o locutor de rádio em português. O espectador se depara com imagens de São Paulo, outras do Japão e até do Canadá, representados nesse novo mundo globalizado e pequeno, onde todos se conhecem e ao mesmo tempo distanciam-se da própria condição humana e aproximam-se do instinto básico animal.
“Ensaio sobre a cegueira” procura discutir o fato de que as pessoas antes de perderem a visão, já viviam completamente “cegas” perante o mundo em que vivem. Onde a cura para a tal “cegueira branca” só estaria na re- socialização da humanidade, no ato de reconhecer que dependemos dos outros e necessitamos enxergar o próximo. Para isso, é interessante a lógica que a narrativa busca retratar, assim como no livro, as pessoas não tem nome e são identificados apenas pelas profissões ou características mais marcantes, exemplos como “O médico”, “A mulher do médico” “O garoto estrábico”. E não é assim que definimos no nosso mundo as pessoas que nos cercam? As vezes de forma injusta e até pejorativa?
Meirelles conduz sua obra de forma inteligente, junto com seu elenco busca desenvolver com maestria os personagens criados por Saramago. Por exemplo a maravilhosa Juliane Moore, representa “A mulher do médico”, dona-de-casa entediada, com grande atuação Moore representa tal marasmo, com apenas um olhar distante e um simples gole de vinho, e ao longo da história “A mulher do médico” vai se tornando uma personagem mais complexa, ainda mais que ela vira peça fundamental não só da vida de seu marido como a de um grupo de pessoas. Assim como, Gael Garcia Bernal, “o Rei da Camarata 3” consegue se tornar asqueroso e cômico ao mesmo tempo, destaque para o momento em que imita o cantor Stevie Wonder.
O visual do filme também merece destaque. A direção de fotografia de César Charlone, investe numa câmera totalmente oscilante, planos que cortam os personagens e cenários pela metade. O ar de brancura e frieza existente em toda projeção colocando ou aproximando o espectador a própria “cegueira branca”.
“Ensaio sobre a cegueira” tem em todo seu aspecto fatores representativos, cenas que chocam e ao mesmo tempo nos comove pelo simples fato de estarmos inseridos no mesmo contexto do filme. Se estamos irritados pelo fato de que alguém atrapalha o seu filme por conversar, ou até mesmo alguém que passeia pelo cinema. De repente um estado de “cegueira branca” é necessária, se estamos em um mundo que nos coloca dependentes de qualquer um, não é cor, sexo, opção sexual ou condição social que nos afasta, é simplesmente a ignorância de um pano branco que paira sobre os olhos de uma sociedade que não quer ver que tolerância e amor é o melhor meio de seguirmos em frente, sempre juntos.

AMARELO CINEMA QUE PULSA

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Amarelo Manga, produção brasileira de 2003, do pernambucano Cláudio de Assis, particularmente, tem sido um dos filmes mais arrebatadores, chocantes e realistas já inventado ou produzido no cinema brasileiro. Difícil, é ver, e até mesmo falar de Amarelo Manga, ora por não querermos enfrentar a situação real da condição humana, ora por não aceitar que vivemos nesta real situação, na sociedade conturbada, doentia, mesquinha, dilacerada, pobre e contraditória como a do Brasil. Adjetivos que resumem a ideologia da desconcertante e incômoda obra de Cláudio de Assis.
Com um tributo à cidade de Recife, Amarelo Manga, explicita a situação da condição humana, através de histórias que se entrelaçam de forma inteligente e dinâmica fazendo o espectador se remoer e rever suas crenças, valores e opiniões que surgem durante a narrativa, através das atitudes das pessoas, nessa multifacetada discussão social.
Lígia (Leona Cavalli), mora e trabalha em um bar chamado Avenida, sua vida cotidiana se resume em acordar e já ir direto ao trabalho, todos os dias são iguais, até mesmo as reclamações. Sua relação com o próprio corpo não possui restrições, está sempre a mostra, celebra o corpo, mas o interdita a posse e não aceita as provocações feita por seus clientes do bar.
Isaac (Jonas Bloch) é um dinamarquês-brasileiro envolvido com o tráfico de drogas e está sempre a busca e negociando cadáveres para satisfazer um próprio fetiche, atirar em corpos em decomposição.
Kika (Dira Paes), uma evangélica que está sempre escondendo seu corpo e preocupada com comentários do próximo, acaba servindo de “chacota” para sua vizinhança, justamente por ser casada com um mulherengo que trabalha em um matadouro.
Wellington “O Kanibal” (Chico Diaz) é o marido mulherengo de Kika que trabalha no matadouro, possui uma amante para satisfazer seus desejos sexuais, relação que não possui com Kika.
Trabalhando e morando em um hotel, Dunga (Matheus Nachtergaele), é um homossexual, que deseja tanto no amor, quanto no sexo, o Kanibal. É capaz de fazer qualquer coisa para possuir mulherengo.
Esteticamente, o filme se apodera de uma linguagem visual que representa a relação social dos indivíduos criados a partir das possibilidades do mundo real. Amarelo Manga nos questiona se fazemos parte do mundo proposto, vivendo cada momento, mesmo que muito repugnante. Traição, religião, discussão de gênero, tudo se escancara frente à tela, como um tapa de mão cheia no rosto do espectador. Mesmo porque, o mais forte da obra está representado numa linguagem carnal, animal, sanguíneo seja qual for o sentido das suas significações. Personagens se inserem num círculo, numa dimensão, num cenário de desejo, que os tornam determinados a lutarem seja de qual forma for por sua ambição. Individualismo combativo marcado justamente pelo desejo, desejo da carne, do sangue, que serve de guia para a determinação. Personagens guiados pela paixão, que penetram, num plano de armadilhas e vinganças, de uma busca avassaladora pelo desejo e pela felicidade.
Amarelo Manga sempre se representa numa relação primitiva e individualista de cada personagem, através de uma filosofia trágica onde o homem transita como um animal degenerado que vaga sobre o pasto em direção a seu matadouro, com sua marca de sangue que o impede à felicidade e seu principal objetivo, o desejo.
O próprio diretor Cláudio Assis afirma: "quero fazer um cinema que mostre o povo, o seu lado mais marginal, o submundo. Não quero fazer filmes limpinhos nem filmar o sertão com gente bem vestida. O nosso povo não é assim".
Felizmente Amarelo Manga vem propondo ao cinema nacional, a característica da ideologia, a realidade e sua própria estética. Assim, os indivíduos são capazes de aprender, e até mesmo de entender e a aceitar a cultura, os costumes, as crenças,e que, a maldade, a contradição e a própria condição humana pode estar presente na vida de qualquer outro indivíduo que faça parte do universo.
Amarelo Manga, como foi dito é um filme difícil de se falar e de entender ou seja, de aceitar a própria realidade, que realmente vivemos na própria órbita de um amarelo manga, vivo e pulsante, quem sabe da cor do ouro, cor que reluzirá apenas no momento em que curarmos o amarelo das feridas purulentas, doentio e sarcástico.

BEM VINDO A CIDADE DOS CACHORROS

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Provando que é um diretor talentoso e criativo, ou quem sabe muito mais do que isso, Lars von Trier, depois de Dançando no Escuro realiza o brilhante e o fascinante de Dogville, no qual utiliza um recurso que não se afasta muito das limitações que havia determinado com o Dogma 95, apenas o uso de luz ambiente, a proibição do emprego de trilha sonora, entre outros oito pontos de proibições para técnica cinematográfica. E com Dogville, Lars von Trier resolveu ousar mais ainda e baniu quase todos os cenários do filme, caracterizando e representando a cidade de Dogville a uma série de traços no chão e poucos objetos de cena.
Situada durante a Grande Depressão Americana dos anos 30, a história gira em torno de Grace (Nicole Kidman), uma jovem que, depois de fugir de perigosos mafiosos, vai parar na minúscula Dogville, que possui pouco mais de uma dezena de residentes. Encantado com a moça, o introspectivo Tom (Paul Bettany) propõe que a cidade ofereça abrigo a Grace, que, em troca, faria pequenos serviços para seus moradores. Aos poucos, porém, os aparentemente pacatos habitantes de Dogville vão exibindo um lado sombrio e passam a explorar a garota, que, impedida de abandonar o lugar, se descobre em uma prisão capaz de lhe causar mais sofrimentos do que os próprios gângsters.
Dogville estranha pela imposição dos cenários atípicos. Sua ausência cria um novo estilo de se ver cinema, um cinema mais teatral de Lars von Trier, surgindo um novo recurso simplesmente genial, que afasta a própria cidade, os personagens e o espectador para um local isolado de tudo e realça o sentimento de isolamento, que bloqueia qualquer intervenção externa. Dogville assume uma vontade própria, que se recria na mente de cada espectador, Lars von Trier dá essa liberdade e anula sua influência sobre o filme.
Os segredos na cidade pequena de Dogville são impossíveis de ser guardados, porque todos os personagens estão sujeitos e vulneráveis pela maldade sutil existente em cada um. O objetivo principal do diretor é focalizar a total exposição dos personagens e com grande criatividade Lars von Trier não permite que vejamos o lado sombrio dos moradores daquela cidade e surpreende a audiência quando se deparam com as crueldades realizadas com Grace, identificando ao espectador de que até o ser humano mais inofensivo pode ter atitudes contraditórias e ameaçadoras.
A protagonista, Grace, é um exemplo completamente contraditório dos moradores da cidade, ingênua, acredita sempre na bondade das pessoas e se essas possuem atitudes sombrias, é justamente por causa do medo existente em cada um. O espectador pode até pensar que a atitude de Grace no final do filme é devido aos maltratos de Dogville, mas Grace não conter sua própria crueldade, não é fruto dos abusos, mas sim do desgosto de ver sua bondade e seu otimismo destruído por suas experiências. A irônica conclusão do filme é impiedosa, revela muito, mas não apenas sobre Grace e os moradores de Dogville, mas principalmente sobre o espectador e seu sentimento ao desfecho da obra.
Lars von Trier realmente nos mostra que somos seres contraditórios, hedonistas e insatisfeitos, as vezes pelo próprio medo, buscamos a melhor e a pior forma de satisfazer nossos desejos, independente de quem ou com quem que da mesma forma busca o incessante egoísmo do prazer. Somos o pior e o melhor ser humano existente no mundo. Para o mundo, somos o pior.

SEMPRE... AS HORAS.

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“Encarar a vida pela frente... Sempre. Encarar a vida pela frente, e vê-la como ela é. Por fim entendê-la e amá-la pelo que ela é. E depois deixá-la seguir... Sempre os anos entre nós, sempre os anos... Sempre o amor. Sempre a razão. Sempre o tempo... Sempre... As horas.” Virginia Woolf.

Em 2002, o diretor Stephen Daldry realizou o denso e notável filme “As Horas”. Adaptação do premiado livro de Michael Cunningham, “As Horas” nos revela o retrato sofrido de três mulheres em diferentes épocas que, apesar de estarem em gerações diferentes, possuem características comuns em suas visões de mundo, assim como uma curiosa ligação com um livro: o romance “Sra. Dolloway” da escritora inglesa Virginia Woolf. O roteiro desta produção é assinado com grande sensibilidade por David Hare que inicia o enredo com Virginia Woolf (Nicole Kidman) em 1923, escrevendo sua obra literária “Sra. Dolloway”, enquanto tenta se acostumar na pequena cidade em que seu marido a obrigara morar para tratar dos graves problemas psicológicos durante o período em que residia em Londres. Paralelamente, em 1951 Laura Brown (Juliane Moore), perfeita mulher de família, lê a obra escrita por Virginia enquanto tenta lidar com o sofrimento da infelicidade de viver com seu filho de 5 anos e o marido. E em 2001 nos deparamos com a versão moderna da personagem de Woolf, Clarissa Vaughan (Meryl Streep) que prepara uma festa ao amigo Richard (Ed Harris) que, HIV positivo, está sendo homenageado pelo sucesso de seu livro.
Três mulheres que escondem o sofrimento e a dor de enfrentar um dia, o motivo, o roteiro procura não explicar ao espectador, mas não tem necessidade. “As Horas” se concentra na maneira que estas mulheres lidam com os sentimentos, sem compreender exatamente o que as aflige. Virginia é uma mulher contraditória que, luta e defende suas atitudes, mas ao mesmo tempo teme ser julgada pelos criados da casa.
Clarissa Vaughan é uma mulher inteligente que demonstra força e independência, mas revela-se uma mulher vulnerável, questiona sua própria vida pelo fato de estar vivendo com sua parceira e ao mesmo tempo doar-se ao amigo doente que procura demonstrar a Clarissa a necessária forma de não viver pelos outros.
Por outro lado, numa época dominada pela obsessão da “família perfeita americana”, Laura Brown precisa lidar com sua depressão para assumir o papel de mulher e dona de casa perfeita. Uma mulher que tem seus sonhos sufocados pela vida de aparências que assumiu, culpada pela ingratidão à família, demonstra seu carinho através de atitudes totalmente artificiais como o momento em que ela e o filho resolvem fazer um bolo para o pai para que assim amasse sua família.
Em seus aspectos técnicos “As Horas” é conduzido com maestria pela edição de Peter Boyle. Sensível e elegante é maravilhoso como as cenas das diferentes épocas se entrelaçam sem destoarem da fotografia proposta a cada geração. Também não dá para não falar da direção de fotografia de Seamus McGarvey que encanta o olhar do espectador em um anestésico e paradoxal sentimento que acalenta e adoece ao mesmo tempo, acompanhado pela bela e melancólica trilha sonora de Philip Glass.
Sensibilidade é o que define “As Horas”, seja pela atuação ou pela condução do filme. Assim como o livro, o filme cinematiza e interliga os sentimentos de mulheres que procuram encarar a vida pela frente e procuram entendê-la como ela é, independente amá-la. As horas sempre vão parecer intermináveis, mas é preciso enfrentá-las seja pelo tempo, amor ou razão.

UMA CIDADE CHEIA DE SONHOS

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Sempre gostei de analisar a expressão das pessoas no cinema depois que um filme termina. As luzes se acendem e lá estão novos indivíduos que amaram ou odiaram a projeção passada, pensando se valia ou não a pena ter gastado dinheiro e passado duas horas sentado. É melhor também quando você pega um filme que procura fugir de todo o padrão hollywoodiano e comercial, quebra a narrativa tradicional e foge dos padrões acostumados pela massa. Esses geralmente são os mais detestados pelo público.
É por isso que sempre digo às pessoas não julgarem um filme a primeiro momento, se você não entender, duvide e assista ao filme novamente, sua percepção vai mudar. Acredito que aí está o bom cinema também, que o faz pensar, interpretar e o leva a visões completamente diferentes das que você já teve. Condenar aquilo que não entende é errado, antes de julgar aprenda a olhar e maravilhe-se, porque existem muitas pessoas querendo falar da vida, e quando se foge da tradicional forma de se contar historinhas, essa arte ganha um pouco mais de graça.
Para exemplificar um pouco disso, hoje indico a vocês Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive) de David Lynch. Vocês já devem ter ouvido falar desse diretor, se não, pelo menos já assistiram alguma obra desse maravilhoso artista. David Lynch é o consagrado criador do seriado de sucesso Twin Peaks, que contava o mistério do assassinato de Laura Palmer. Também dirigiu outras obras primas como “Coração Selvagem” (Wild Hearts), “A Estrada Perdida” (Lost Highway) e o “O Diabo Veste Azul” (Blue Velvet) entre outras.
Voltando ao filme proposto, vamos falar de “Cidade dos Sonhos”. É um filme complexo, sim, mas não incompreensível. Muitas pessoas não tem percebido a magia criada por Lynch nessa obra, mesmo porque nos dias de hoje, a maior parte das produções cinematográficas não tem exigido muito de seus expectadores, tudo soa simples e auto-explicativo, os filmes pensam por nós e tudo explode com cenas espetaculares que enchem nossos olhos, anestesiando o poder crítico dos espectadores.

Roteirizado e dirigido pelo próprio Lynch, “Cidade dos Sonhos” é uma produção extraordinária e muito bem realizada, ou quem sabe apenas o que Lynch sempre desejou: cinema puro, baseado na manipulação sutil de som, imagem e atuação. O diretor consegue, contar uma história comovente, com uma estrutura narrativa totalmente entrelaçada e criativa.
Tudo começa como uma história comum. Uma mulher misteriosa (Laura Elena Harring) que acaba sendo vítima de um atentado enquanto anda de limousine na Mulholland Drive (nome de uma estrada em Hollywood), mas um acidente com um carro em alta velocidade a salva da morte. No entanto, ela não escapa de uma amnésia, e vai parar no apartamento da tia de Betty (Naomi Watts), uma aspirante à atriz, de quem fica amiga e, depois, amante. Paralelamente, se conta a história de Adam Keshner, diretor de cinema que se envolve com a máfia italiana ao ver que seu filme não sairá como quer, devido à escolha impositiva da máfia de escalar uma modelo desconhecida chamada Camilla Rhodes. Há também a história de um homem que vê monstros atrás de lanchonetes, de um Clube chamado “Silêncio”, de uma caixinha azul e uma chave misteriosa.
Como se trata de um trabalho de David Lynch a trama de Cidade dos Sonhos ao seu decorrer se torna complexa, e a forma que o diretor a desenvolve se torna mais ainda, porque utiliza diversos tipos de narrativa, inserindo cenas sem nexo, flashbacks, sonhos, delírios e até mesmo cenas fora de sua ordem cronológica que aparecem sem avisos, o que acaba brincando com a percepção do espectador, fazendo-o buscar suas próprias referências para a compreensão, ainda mais quando o filme chega aos seus vinte minutos finais, o espectador completamente se perde e precisa re-organizar sua mente para compreender o que realmente aconteceu, a trama muda totalmente de sentido.
“Cidade dos Sonhos” é um filme que não se deve deixar de assistir, por mais complexo que ele possa soar, é um perfeito exercício de lógica. Com certeza você vai encontrar uma experiência completamente diferente daquela que existe ao assistir filmes comuns. O que se é acostumado ver, acostumado se é compreender. Lynch teve noção disso e da melhor forma nos demonstra neste filme que é necessário sair do tradicional para que possamos compreender seja em nossa realidade, ou numa cidade cheia de sonhos.

VAMOS FALAR DE CINEMA

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Quando se planeja escrever sobre algo que você tem paixão, pensa-se em organizar todo o turbilhão de idéias que isso lhe proporciona para não faltar nada e não ter que voltar atrás, buscar o esquecido e começar tudo novamente a partir de outra idéia. Também faz-se planos da melhor maneira de escrever, qual a melhor forma, qual delas oferece melhor compreensão, a mais resumida ou mais completa, afinal é sobre uma paixão que estamos falando, e esta no meu caso, é o cinema.
Começo este espaço com a pergunta “aonde quero chegar com esta paixão?” O cinema tem sido isso há muitos anos. Quando ingressei na faculdade de Publicidade e Propaganda em Foz do Iguaçu no ano 2000 me perguntei, se eu gostava tanto de cinema porque fazer uma faculdade de propaganda? Mesmo assim fiz. Ainda no início do curso tive a oportunidade de fazer uma atividade extracurricular em Direção de Cinema e lembro do cineasta Percy Tamplin dizendo: “Se você descobre que um filme é bom na primeira cena, acredite, você já é apaixonado pelo cinema.”
E ele disse isso não porque soa como regra de se descobrir bons filmes, mas sim porque ele sabia que em um mundo mágico como o cinema, independente de cenas, não precisa fazer muita coisa para te cativar.
Acreditando nisso virei cinéfilo de carteirinha e esse mundo cinematográfico representaria toda suposta realidade da minha vida e a cada cena “lavaria” o meu olhar para encontrar nos filmes suas diferentes realidades. E essa força que o cinema tem em nossas vidas passa por cima daquilo que procuramos para concordar ou contrapor nossas idéias. É como por exemplo conversar com uma pessoa conhecida, um amigo ou familiar. O cinema passa pelas veias invisíveis do cotidiano, e continua no nosso inconsciente preenchendo o reflexo e a representação que temos da realidade.
Compreender a vida sempre teve sua forma crua de realidade e o cinema veio para anestesiar todos esses sentimentos. Já somos acostumados a encher os olhos com as produções hollywoodianas e acreditar inconscientemente nos personagens destas produções, pessoas frias e esquizofrênicas. Os franceses dos anos 70, descolados, intelectuais e sexualmente liberais ou os asiáticos que gritavam em forma de poesia sua cultura, crenças e valores. Cada um tem o cinema a representação de sua realidade.
Também temos como exemplo as frases e os personagens que citamos e copiamos no nosso cotidiano, seja propositalmente ou até mesmo sem querer. Ou então, nas situações que acontecem em nossa vida e concluímos que tudo passou na nossa frente como um “filme” ou que tal situação era “cena de um cinema”. É a projeção do que somos e do que queremos ser, afinal nosso comportamento, nossa realidade precisa estar baseada em alguma coisa, ainda mais quando ela é cinematográfica.
Ao finalizar minha Pós- graduação em cinema em Curitiba descobri que todo tipo de cinema é bom, seja ele entretenimento, documental ou independente, cada um representa uma realidade de alguma forma. No meu caso aprecio mais uma obra que outra quando esta se expressa de forma diferente, fora do comum. Essa é minha realidade e, creio, de muitos amantes da sétima arte. Um filme que foge dos clichês precisa sua atenção especial, pois de comum já basta o cotidiano.
Para escrever sobre essa paixão, reúno todas as cenas, frases, personagens, realidades, não apenas a que quero representadas, mas todas. Filmes, bons ou não, que circulam no turbilhão das minhas idéias. Sendo assim, se precisar voltar ao inicio, e acredito ser necessário, buscarei o esquecido para traçar um novo caminho. Quero convidá-los a me acompanhar para compartilharmos esse turbilhão de idéias e vidas que o cinema nos proporciona. Não prometo chegarmos a uma verdade. Afinal nossa realidade muda a cada dia e como o cinema é reflexo disso tudo, entender essa dinâmica é necessário.